Reapaixonar-se verdadeiramente é ainda mais difícil do que apaixonar-se verdadeiramente. Quem quer um sentimento morto-vivo batendo dentro de si como um zumbi dilacerado? Não seria mais fácil matá-lo? Não é melhor apagar do que queimar os poucos?
Nem sempre. O bom do novo-velho amor é que ele vem sem frescura, sem máscaras, sem véus. É que ele te olha no olho e te enxerga como você se enxerga, e não há nada mais assustador do que isso. Ter alguém que te conheça como você se conhece e te ame de qualquer maneira é poético, sim, mas ao mesmo tempo assustador. E é difícil. Seria mais fácil acreditar naquele que ri das tuas piadinhas, que não conhece tuas banhas, que não sabe que tu ronca, que nunca te viu arrotar, que não te viu de mau humor, que nunca te viu sendo egoísta, que não sabe que por vezes tu pega emprestado sem pagar. Mas isso aí é um sentimento qualquer, que encontra-se ali na esquina. É paixão de liquidação.
Amar, amar mesmo não é fácil. Manter o amor vivo é muito mais difícil. Mas o sentimento de sentir-se apaixonada novamente, a sensação de entregar-se àquele amor guardado no fundo da gaveta é indescritível.
